10/04/2008

Arte que se lê: "Bodhicaryavatara" ou "O Caminho para a Iluminação" de Shantideva


Hoje trago-vos o texto mais estudado e comentado da história do Budismo - "O Caminho para a Iluminação" ou "Bodhicaryavatara" de Shantideva.

Os livros são uma ferramenta maravilhosa, pois permitem-nos aceder a todo o tipo de informação e retirar-mos as nossas próprias conclusões sobre qualquer tema.

Por vezes não dou "ponto sem nó", como se costuma dizer. Tenho focado com alguma intensidade através da exposição aqui de produtos da expressão artística a questão do Tibete. Respeito a opinião de todos, mesmo as que divergem da minha, mas já que muitos são impedidos de se expressarem livremente, digo eu em seu nome e, em meu nome: Acredito no Tibete como nação livre e independente. Porque quando penso no planeta Terra como um todo, como a aldeia global como conceito que tantas vezes se gosta de sublinhar, penso na Amazónia como o seu pulmão e, o Tibete, o seu terceiro olho, a espiritualidade do Mundo, que há que preservar, intocado.


A Vida de Shantideva:

"Shantideva nasceu no século VII na antiga província da Saurastra, na Índia. O seu pai, Kalyanavarman, que era o rei dessa província, chamou-lhe Shantivarman, Armadura-de-Paz. Desde a sua mais tenra idade, o príncipe manifestou um profundo respeito pelos mestres espirituais e uma grande bondade pelos habitantes do reino, sobretudo pelos pobres e pelos doentes.

Um dia, encontrou um asceta que lhe ensinou a arte de meditar sobre Manjushri, o Buda do Conhecimento, e pouco tempo depois Manjushri apareceu-lhe numa visão e abençoou-o.

Quando o rei morreu, a corte preparou em grande pompa a sagração do príncipe erigindo um majestoso trono. Mas, na noite anterior à cerimónia, Manjushri apareceu ao príncipe em sonhos sentado nesse trono e disse-lhe: "Meu filho, este trono é o meu. Sou o teu Mestre Espiritual, não é conveniente que partilhemos o mesmo assento." O príncipe acordou e compreendeu que não deveria reinar. Renunciando aos faustos da corte, fugiu e entrou na ilustre universidade budista de Nalanda. Foi ordenado monge por Jayadeva, o principal dos quinhentos panditas, e recebeu o nome de Shantideva, Divindade-de-Paz.

Sem que ninguém se desse conta, estudou a Tripla Recolha, os ensinamentos de Buda, e assimilou perfeitamente o seu sentido pela meditação. Compôs então dois tratados: O Shiksamuccaya, ou o "Compêndio das Instruções", e o Sutrasamuccaya, ou o "Compêndio dos Sutras" nos quais expôs a essência do seu saber e da sua profunda realização.

No entanto, aos olhos dos seus companheiros ele não passava de um ignaro preguiçoso a quem chamavam "Bhusuku" (o que só sabe comer, dormir e fazer as suas necessidades). Todos achavam imoral alimentar esse parasita com as oferendas dos fiéis e decidiram fazer tudo para correr com ele.

Tendo-se posto de acordo, os monges proclamaram que cada um por sua vez devia pregar o Dharma. Pensaram assim que, para evitar ser humilhado, Bhusuku fugiria. Mas não só isso não aconteceu como, apesar da insistência dos seus colegas impacientes para o ridicularizar, ele recusou-se a pregar, argumentando com a sua ignorância. O caso foi levado ao abade, decidindo que o monge recalcitrante se submetesse à regra.

No grande átrio do templo preparam então um grande trono inusitadamente alto, disposeram um altar com numerosas oferendas e convocou-se a assembleia completa dos monges.

À hora prevista convidaram o "parolo" a sentar-se. De repente, sem que alguém se desse conta como, Shantideva estava sentado no cimo desse trono desmesurado. Alguns começaram a sentir-se pouco à vontade.

Shantideva perguntou: "Devo comentar um texto conhecido ou devo dar um ensinamento inédito?". Os panditas olharam-se, surpreendidos e trocistas, e responderam: "A vossa aptidão é dormir e as vossas outras maneiras são realmente extraordinárias; o melhor é manter essa vossa tradição específica: improvisai-nos um discurso." Então Shantideva expôs os Bodhicaryavatara, mais pequeno que o seu "Compêndio das Instruções" e mais detalhado que o seu "Compêndio dos Sutras".

Enquanto ensinava, a assistência, estupefacta, viu Manjushri majestosamente sentado no céu e concebeu uma grande fé. Quando Shantideva chegou a estes versos do nono capítulo:

"Quando nem a realidade nem a não-realidade deixam de se apresentar ao espírito, então, na ausência de qualquer outra atitude possível, o espírito liberto de conceitos tranquiliza-se"

elevou-se lentamente no céu com Manjushri, cada vez mais alto até se tornar invisível. No fim do Bodhicaryavatara só se ouvia a sua voz.

Os panditas, cuja memória tinha a reputação de infalível, imediatamente puseram o seu discurso por escrito. Mas uns encontraram-se com setecentas quadras, outros com mil e outros com mais ainda. A versão dos panditas do Kashmir tinha nove capítulos e setecentas quadras, a versão dos panditas do Magadha tinha dez capítulos e mil quadras. Levantou-se uma dúvida nos seus espíritos. No seu discurso, o Mestre tinha lido que lessem continuamente o "Compêndio das Instruções", ou então que se estudasse, como abreviado, o "Compêndio dos Sutras".

Ambos os textos eram desconhecidos de todos. Dois panditas de memória infalível decidiram procurar Shantideva. Depois de muitas buscas encontraram-no no sul da Índia, meditando junto a uma stupa. Explicaram-lhe então lentamente as razões da sua visita. Shantideva disse-lhes que a versão autêntica era a dos panditas de Magadha e que os dois compêndios estavam em Nalanda, nas traves do telhado da sua cela.

Encantados, voltaram a Nalanda e encontraram no lugar indicado os dois manuscritos, escritos na fina caligrafia dos panditas. De novo voltaram para junto do Mestre, que lhes explicou o sentido desses textos.

A existência extraordinária de Shantideva progrediu sempre. Percorreu a Índia realizando milagres, salvou milhares de pessoas da fome multiplicando o alimento, curou doentes e feridos, deu fé aos incrédulos e viveu como um perfeito Bodhisattva."


Algumas das quadras do Bodhicaryavatara:


"O desejo, o ódio e as demais paixões são inimigos sem mãos e sem pés, desprovidos de coragem e de inteligência; como é possível que me tenha tornado escravo deles?"


"Um simples voto para o bem do mundo vale mais do que adoração do Buda; quanto mais ainda se lhe juntarmos o esforço de propiciar a felicidade integral a todos os seres."


"Vezes sem conta o prazer e o desagrado foram para mim ocasião de mal agir. Como pude esquecer que um dia teria de abandonar tudo e partir?..."


"Durante a minha permanência neste mundo, muitos se foram, uns amigos, outros inimigos, mas o mal que cometi por causa deles continua sempre presente como uma ameça que não me larga."


"Devemos ver no corpo uma barca que vai e que vem. Que o corpo vá e venha segundo a tua vontade de conduzir os seres à sua finalidade."


"Assim, mestre de si, que o praticante esteja sempre sorridente, que evite franzir o sobrolho e mostrar-se zangado; que seja amigo de toda a gente".



leia a obra na totalidade aqui:


Imagem: Shantideva

2 comentários:

Meus Netos Minha Fortuna disse...

Este último post, sou sincera, ainda não li, mas os outros, demorei...mas já pus a leitura em dia, gostei...amei de verdade a maior parte deles!
Para mim, são coisas que eu gosto, umas mais outras menos, mas que me enriquecem a todos os niveis...e não gasto dinheiro!
Parabens e obrigada por esta sua disponibilidade!
Bom fim de semana!
Um grande beijinho
Cassilda

carica disse...

Nunca me canso de dizer o prazer que é vir ao blog e ter uma mensagem da querida amiga Cassilda.
É impossível não ficar com um sorriso com palavras tão amáveis, sempre!
Querida amiga, faço este bloguezito com muito gosto, mas saber que há quem lê e aprecia dá-me uma enorme, imensa alegria.
Muito obrigada cara amiga.
Ana

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