24/03/2010

Opinião pessoal: Homenagem a Leandro


Nos últimos dias têm sido abundantes as notícias nos espaços de informação sobre o fenómeno do bullying. Não porque seja um fenómeno recente, mas porque Leandro, um menino de 12 anos, vítima constante de violência física e psicológica, atirou-se ao rio Tua.
Ontem assisti com lágrimas nos olhos e um sentimento de revolta e raiva a mais uma reportagem sobre este tema na TV, não só pela incomensurável tragédia que é um menino de 12 anos sentir que não encontra outra alternativa senão acabar com a própria vida, sem esquecer as outras crianças que passam pelo mesmo, mas também porque tocar neste tema é acordar memórias dolorosas da minha própria infância.

Gostaria que todos se apercebessem que o bullying não é um fenómeno recente, nem exclusivo desta nova geração. Apenas este não era levado a sério por mais ninguém, a não ser por quem padecia deste mal. Foi necessário que uma criança desesperasse desta forma para este tema ser considerado com a relevância que sempre mereceu. Ainda estamos para ver que acções irão ser implementadas, que soluções...

Tenho 30 anos e fui vítima de bullying durante grande parte da minha infância e adolescência. Acredito que o facto de ser uma criança calma, sem instintos agressivos, seguidora da grande maioria das regras que nos impunham em casa e na escola e por fim uma boa aluna, fez automaticamente de mim um alvo.
Tenho ouvido discussões sobre este tema, variadíssimas opiniões e suas nuances. Choco imediatamente com quem me diz que as crianças agressoras não têm noção dos seus actos, do impacto das mesmas. Apercebo-me que queiram manter a infância um ideal imaculado, pensar nas crianças enquanto seres incapazes das mesmas sombras da idade adulta. Lamento, mas a realidade é distinta.

Uma criança sente inveja, frustação, rancor, ira, medo, ciúme, é egocêntrica tanto quanto os seus congéneres adultos. Somos tal e qual os animais selvagens no instinto de procurar a posição alfa na matilha e, enquanto crianças poucos de nós conseguem refrear esses ímpetos anímicos. E, muitos adultos ficam chocados quando se apercebem do como as crianças conseguem ser cruéis.
Falta à grande maioria das crianças a compreensão dos seus próprios sentimentos e o saber lidar com estes. Falta-lhes a disciplina para saberem que nunca devem seguir os sentimentos mais obscuros e como os afastar. Como se conhecerem, a si e à raiz dos seus pensamentos, sentimentos e acções. E, sim, falta serem disciplinadas e castigadas com severidade quando as suas acções são fonte de dor. A muitas ainda faltam bons exemplos em casa...

Aos adultos que lidam com crianças falta-lhes acima de tudo bom senso.
Lembro-me de um dia, creio que no 8º ano, me ter queixado finalmente a uma professora que um colega de turma, mais velho, logo maior e mais forte, me batia e me ameaçava constantemente. Acho que me chamou "mariquinhas", disse algo como "Oh Ana, tenha paciência!" e o assunto morreu ali. Olhou-me com desprezo, tratou-me de forma igual. Fez questão de me fazer sentir que não havia nada mais infantil do que nos queixarmos.
Foi a primeira e última vez que me queixei a alguém, de uma situação que me atormentava há anos, através de diversos agressores.
O comportamento desta professora era a regra, não a excepção.
Uma outra vez, defendi-me quando atacada por duas colegas de liceu e quando separadas pelas funcionárias, eu é que levei a reprimenda. Fica eternamente a boa memória de me ter comportado exemplarmente nas lambadas que distribui! Vivam os filmes de kung fu e o que aprendi neles! Olaré!

A solução que encontrei na altura foi fazer de tudo para encontrar forças interiormente, nunca mais mostrar fraqueza e quando agredida tentar dar tanto quanto levava. "Olho por olho, dente por dente".
Acredito que resultou.

Embora o meu liceu fosse razoavelmente calmo, um dia, como aluna mais velha que assumia o papel de proteger os mais novos e indefesos, confisquei a um miúdo de um bairro problemático, (que passava frequentemente por lá para assaltar miúdos que parecessem indefesos), uma navalha de ponta e mola.
No dia seguinte lá estava ele à minha espera, acompanhado de mais de uma dezena de rufiões. Aí tive a prova de como me tinha tornado forte. Pedi-lhe um momento e regressei com uma amiga, a única que encontrei naquela hora morta. Não houve violência. Não mostrei medo. Falei com autoridade e ameacei-o com a polícia. Ficou por ali.

Tenho 30 anos. Tenha a idade que tiver as marcas do bullying ficam connosco por toda a vida. Quanto mais velhos e sapientes ficamos, maior a consciência dos anos que perdemos a lamber as feridas, a sentir que não somos desejados, a tentar compreender o que há de errado connosco que justifique sermos maltratados, a tentar readquirir aptidões naturais como a autoestima, a sociabilização, a confiança... O esforço sobrehumano de lidar com a raiva, a frustação, a ira, a mágoa. A tarefa hercúlea que é não deixar que os sentimentos negativos que derivaram dos abusos suplantem o nosso verdadeiro ser, a pessoa boa, pura e luminosa que sabemos que somos e que não queremos que se extinga. Então somos pura dualidade, um vulcão que luta contra a vontade de entrar em erupção e de os queimar, a todos que nos magoaram, de forma brutal, ou a nós próprios.

A criança que fui entende perfeitamente o Leandro, revê-se nele especialmente quando os familiares o descreveram como meigo e boa pessoa. Assustadoramente também a minha história poderia ter terminado precocemente e de forma dramática se não tivesse descoberto uma maior força interior e motivação. Motivação que derivou em grande parte de novos amigos fora do liceu, mais velhos.
Entristece-me que ninguém intervenha nestes casos a tempo. Enfurece-me a preguiça dos professores e dos funcionários escolares em actuar, em preocuparem-se. Assusta-me a ideia de um dia ser mãe porque numa situação assim, alimentada pelos meus fantasmas do passado, sei que perderia a cabeça.

A ti, Leandro, que tenhas encontrado paz e repouso. A todos os outros, abram os olhos.

2 comentários:

Meus Netos...Minha Fortuna!!! disse...

Olá Ana
BEm..é "arrepiante" a tua História!!!
Coincidência" acabo de ouvir na Tv que o corpo do Leandro apareceu!
Paz á sua alma!

Beijinhos minha querida!
Vóvó Cassilda

carica disse...

Querida amiga,

Ainda não liguei a tv hoje, portanto soube por si a notícia.
É uma boa notícia na medida em que vai permitir à família do Leandro passar pelas fases do luto e iniciar o processo de cura.
Honestamente pensei que já tivesse superado tudo isto, mas a história do Leandro fez com que este corpo de dor retornasse à superfície.
Pelas crianças de hoje há mesmo que fazer algo, encontrar soluções.

Um abraço minha amiga.

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